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Medo e aversão no Reino do Meio

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Há um momento — geralmente entre a rodovia do aeroporto e o primeiro formulário de registro policial — em que todo estrangeiro na China percebe que cometeu um grave erro administrativo.

Um estrangeiro preso no ritmo e na papelada da China

A pessoa chega com passaporte, duas camisas, uma garrafa de uísque do duty-free e a vaga fantasia colonial de que o mundo continuará seguindo as regras que conhece. Então o taxista atravessa seis faixas do trânsito de Pequim enquanto grita ao telefone, assiste a um drama histórico ao lado do volante e cospe cascas de sementes de girassol em um copo de papel.

Ninguém morre.

Essa é a primeira lição.

A segunda vem no órgão público.

A China elevou a burocracia para além da mera administração. É um combate ritual. Você entra sob luzes fluorescentes brancas com todos os documentos que possui, além de alguns que falsificou mentalmente durante o trajeto de táxi. Atrás do vidro está uma mulher com poder absoluto para arruinar seu mês inteiro antes do almoço.

Ela pega o passaporte.

Ela o examina como se tivesse sido recuperado do estômago de um espião morto.

“Cópia.”

A pessoa tem uma cópia.

“Não esta cópia.”

A cópia errada. Meu Deus. Há dezenas de tipos: cópias do passaporte, visto, carimbo de entrada, permissão de trabalho, documento do locador, contrato de locação, cópias carimbadas, coloridas, ampliadas em 120% por motivos enterrados com o último imperador.

Três horas depois, você volta com pasta grossa o bastante para parar bala de pistola.

Agora é necessária uma foto.

Fundo branco. Sem óculos. Sem sorriso. Ambas as orelhas visíveis. As dimensões certas. A testa certa. A alma certa.

A câmera rejeita o rosto.

A funcionária, não.

Ela carimba o papel e manda você para outro prédio.

Um estrangeiro diante de montanha de papelada em órgão público

Ao fim do primeiro ano, o estrangeiro competente viaja como um pequeno agente de inteligência. Fotos de passaporte em cada casaco. Cópias digitalizadas em três nuvens. Contratos selados em plástico. Números de telefone de homens chamados Visa Mike, Visa Kevin, Real Visa Kevin e Kevin Número Novo Não Usar Antigo.

Depois vem o WeChat.

O WeChat não é uma aplicação. É o sistema circulatório. O Estado pode reconhecer o passaporte, mas a China reconhece o pequeno ícone verde no telefone.

Com isso você paga o locador. Marca consultas no hospital. Compra bolinhos, eletricidade, passagens de trem, remédios, ingressos de cinema e frutas suspeitas de um homem que transmite ao vivo de Guangxi. O chefe envia instruções às 23h47. A escola da filha manda 47 fotos antes do café da manhã. A administração do prédio anuncia que a água foi cortada — depois de já ter sido cortada.

Perder o WeChat é tornar-se um fantasma a vaguear por um império sem dinheiro, agitando notas como dinheiro confederado.

Só o sistema de alimentação já é suficiente para desorientar uma mente ocidental.

A pessoa toca em uma tela. Dezessete minutos depois, um homem chega sob uma chuva gelada em uma moto elétrica mantida por fita adesiva e fatalismo, trazendo macarrão, cigarros, café gelado e um bolo de aniversário.

Ele liga.

“Alô?”

A pessoa não entende nada.

“马上”, dizem.

Imediatamente.

Isso é mentira. Você está descalço, o elevador está no 23º andar e o entregador começou a gritar o número do apartamento no saguão com a raiva de um credor traído.

Estrangeiros chegam com ambições.

Você aprenderá mandarim. Lerá os clássicos. Estudará caligrafia. Compreenderá cinco mil anos de civilização.

Seis meses depois, estão bêbados e furiosos à meia-noite em uma loja de conveniência porque o caixa de autoatendimento não aceita passaporte estrangeiro.

Assim a China desmonta uma pessoa até a mecânica.

A certeza é punida. Sistemas mudam da noite para o dia. O banco tem aplicativo novo. O aplicativo exige reconhecimento facial. O reconhecimento facial considera que o rosto não pertence a ninguém. O segurança olha para o telefone, depois para o rosto real, e ri tanto que precisa se sentar.

Sem maldade. Pura diversão profissional.

A privacidade é tratada com desconfiança semelhante.

Estranho pode perguntar idade, peso, salário, aluguel, estado civil e planos reprodutivos antes de perguntar seu nome. Senhoras idosas batem na sua barriga e declaram que você é forte. Homens fotografam você no elevador com flash. Crianças gritam “外国人!” como se girafa tivesse entrado no metrô.

Em algum momento, a pessoa para de reagir.

Isso se chama integração.

Um estrangeiro atravessa o trânsito implacável da cidade sob chuva

O mais louco é que a máquina funciona.

Vinte milhões de pessoas acordam e a cidade põe-se em movimento. As portas do metro abrem-se. Baozi fumegam nas esquinas. Encomendas percorrem mil quilómetros durante a noite. Um ecrã de telefone rachado é substituído durante o almoço. Uma rua desaparece na terça-feira e reaparece na quinta — com árvores acabadas de plantar.

O caos está em toda parte, mas tem prazos.

A pessoa aprende o vocabulário da sobrevivência.

“Talvez” significa não.

“Vamos analisar” significa não.

“Deve funcionar” significa que ninguém sabe.

“Muito prático” significa: baixar dois aplicativos, registrar-se com uma carteira de identidade chinesa que você não possui, escanear o rosto, escanear o prédio, escanear a lua e voltar durante o horário comercial com o original de um documento que ninguém mencionou.

Atravessar a rua exige fé. O trânsito não para. Ele se curva.

A pessoa entra em seis faixas de ônibus, scooters, táxis, entregadores e velhos dirigindo máquinas agrícolas pelo centro de Xangai. Hesitar marca você como presa. Se continuar andando de forma constante, o fluxo se divide ao redor.

Na maioria das vezes.

A mesma técnica funciona em reuniões.

Anos passam antes que se perceba o contágio.

Os gritos lá embaixo já não parecem hostis. As tias dançando na praça fazem parte do clima. O velho fumando sob a placa PROIBIDO FUMAR virou elemento arquitetônico. O entregador sabe quando você está em casa. O segurança que pedia seu passaporte toda manhã agora deixa você passar sem tirar os olhos do celular.

Um estrangeiro contempla o Reino do Meio à noite

Depois você visita o país de origem.

Catástrofe.

O restaurante exige um cartão de plástico.

A transferência bancária leva três dias úteis.

A farmácia fecha às seis.

O táxi custa mais que o voo.

Pacote deve chegar em algum momento entre terça de manhã e o colapso da civilização ocidental.

A pessoa fica no balcão e bate o celular no terminal de pagamento como um louco tentando se comunicar com uma máquina agrícola.

Ninguém entende.

É nesse momento que se descobre que a China deixou uma marca permanente.

Os padrões foram recalibrados. A paciência foi fervida. No celular há 19 aplicativos com ícones vermelhos e dourados, todos exigindo atualizações e permissões. Você pode pedir hotpot às três da manhã, mas não explicar o endereço a um parente sem abrir o mapa.

A pessoa reclama constantemente da China. É obrigatório. O trânsito, a papelada, o barulho, os sites bloqueados, os locadores, as reuniões, as reuniões sobre as reuniões anteriores.

A pessoa jura deixar o país.

Todos juram que vão deixar o país.

Depois a noite cai. A chuva brilha no pavimento. Scooters elétricas deslizam sob placas vermelhas. Sob uma ponte, alguém assa espetos de cordeiro. Acima, um trem guincha. A cidade está suja, elétrica e acordada.

A pessoa se senta em um banquinho de plástico e come macarrão em uma tigela de metal enquanto uma equipe de demolição trabalha por perto sem motivo justificável.

E parece certo.

Essa é a doença.

A pessoa veio em busca de oportunidades, aventura, dinheiro, fuga ou alguma revelação oriental mal formada vendida por um livro de bolso na livraria do aeroporto.

O que se encontrou foi velocidade.

Velocidade bruta, exaustiva e ridícula.

Depois de anos suficientes, a vida comum parece insuportavelmente lenta.

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